sábado, 30 de julho de 2011

Quem é de carne e osso e está respirando, acredita-se estar vivo

Por Vanessa Rizzo




Se eu estou viva eu quero cair, me machucar, sentir dor, levantar, sacudir a poeira da roupa, continuar... e se cair de novo, chorar se não tiver força pra levantar sozinho.
Não ter vergonha de falar pro meu amigo o que está me afligindo, de pedir um abraço; de falar uma besteira quando não souber o que falar, de rir de uma coisa sem nexo; de sugerir uma ideia que possa parecer o maior absurdo do mundo, de acreditar e lutar por essa ideia (mesmo sem saber qual caminho tomar, mas começando com o primeiro passo - que já é o prenúncio de um caminho); de falar na cara de um "superior" que ele está errado; de ter coragem de apontar o erro do meu amigo e ter sabedoria para ajudá-lo a consertar esse erro; de aceitar quando a errada for eu; de calar quando minhas palavras não forem necessárias e nem sábias; de perguntar quando tiver dúvida e perguntar novamente quando continuar sem entender; de falar diante de cem pessoas algo que possa agradar a somente uma; de ter coragem o suficiente pra fazer algo que a maioria acha que não vai dar certo (inclusive eu mesma); de engolir o orgulho ao menos uma vez na vida e partir pra tentativa; de usar todas as armas que disponho para lutar pela vida de um percevejo que apareceu no meio da roda de amigos (é, eu já fiz isso mais do que uma vez...); de ver a beleza onde ninguém está conseguindo ver, e mesmo assim não deixar de mostrar pro mundo que ali eu enxergo algo a mais, sim; de ter força e discernimento pra NÃO falar um não quando meu coração souber que o melhor pra mim está no sim; de ouvir tudo o que a velhinha do ônibus tiver pra me falar naquela manhã agitada; de poder ser um dia a velhinha do ônibus e torcer pra ter alguém que me ouça também; de me arriscar na cozinha a fazer um prato maluco só com a receita e sem os principais ingredientes, substituindo tudo e acreditando mesmo assim que ficará "daqui, ó"; de dormir absurdamente tarde por estar conversando com quem eu gosto e acordar arrasada no dia seguinte pra ir trabalhar cedo, mas feliz da vida; de ficar feliz da vida por uma coisa bem pequena e que não vá mudar nada na minha vida (como o Cielo não ter sido prejudicado na sua carreira pelas acusações do teste antidoping); de gostar mais quando dizem que eu sou legal do que bonita; de ir pro shopping e ficar com cara de boba olhando as criancinhas brincando e rindo; de experimentar aquilo que todo mundo me disse que era horrível, só pra confirmar mesmo e também poder falar que é horrível; de abrir mão do meu doce preferido e dividi-lo igualmente entre cinco amigos (ah... pingo-de-leite !!!!); de fazer aquela prova foda sem estudar e ainda ficar otimista esperando o resultado (ô micro !!!!), de estudar, me ferrar e não ir reclamar nota com professor (acho isso muito feio hehe) e jurar com todas as minhas forças: me aguarda na próxima prova, velhote! (fuck yeah); de ficar às vezes mais de um mês sem ver a mãe e ainda assim conseguir ser uma mãezona para os meus amigos; de colocar música de fossa só pra conseguir chorar mais um pouquinho e ver se passa de uma vez, e me ferrar por ficar com o nariz entupido, os olhos vermelhos e a cara inchada; de ter a cara de pau de falar que não estava chorando e ter a sutileza de esboçar um sorriso no meio daquela fisionomia deplorável, e ficar aliviada quando a pessoa fingir que acreditou que era um cisco; de falar pro meu pai que ele canta super bem mesmo quando eu não estiver aguentando mais aquele trecho repetido da música; de conversar com a minha avó sobre a vida e prestar atenção piamente nos conselhos dela, fazendo de conta que aquilo é um segredo de estado e só eu estou tendo o privilégio de ter acesso àquelas informações, e de não ficar triste quando ela de repente interromper a conversa falando que está na hora de fumar o cachimbo dela (¬¬); de perder o raciocínio do que eu estava falando quando sou surpreendida por um (“O”) beijo; de me deslocar quilômetros pra falar: é... estava passando por aqui e resolvi falar um oi...; de chorar vendo um filme que eu já conheço todas as falas (“E se fosse verdade”); de ligar a webcam pra explicar a matéria pra alguém (e fazer isso mais do que uma vez com a mesma boa vontade); de ir pelo caminho aparentemente mais difícil só pela emoção dos obstáculos (clássica teimosia, hehehe); de quase montar um book em casa e desconversar quando falam que eu tenho jeito pra modelo (mas que besteira, perderia a mágica!); de ver o lado bom de quase tudo; de perguntar algo sabendo a resposta só pra ter certeza (moço, esse ônibus é mesmo parador, né?); de deixar tudo pro último dia sabendo que eu sempre dou conta (ah... mas vai ter um dia em que vou me ferrar haha); de provocar (ah ! Clássica das mulheres! “Saio pronta pra seduzir até os postes da rua”); de aprender tudo sobre determinado assunto em apenas um dia; de colocar qualquer roupa porque estou sem paciência pra escolher; de levar um dia inteiro fazendo as unhas dos pés e das mãos e ficar uma fera com quem interromper a minha terapia; de ver um filme merda só pra saber o final; de guardar revistas com sugestões de decoração pensando na minha casa (com sacada, janelão e jardim na frente); de discutir com minhas amigas pra não colocarem aqueles nomes nos filhos, pois já serão os dos meus (hahaha, minha prole); de não suportar ir na rua comprar coisas em lojinhas (terrível isso); de morrer de rir na hora da janta só porque está todo mundo sério; de acreditar que quando se sente um pouquinho, sem intensidade, então não se sente; de querer sempre sentir o máximo de tudo, de viver o máximo e de ser feliz e triste ao máximo, pra que isso pareça real; de ser capaz de falar e acreditar numa coisa e acabar fazendo outra que me pareceu a ideal na hora; e de escrever tudo isso que estava guardado, pensando em de repente alguém ler.

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